segunda-feira, março 21, 2011


Rótulos

Uma das coisas mais deliciosas e ao mesmo tempo complicadas da maternidade é entender a personalidade da criança, deixá-la ser como é e não como gostaríamos que ela fosse e aprender a lidar com o jeitinho da criança sem julgamentos.
Com duas crianças, a comparação é inevitável - um é mais calmo, outro é mais genioso, um é carinhoso e outro é tímido e assim por diante. Acho delicioso reparar nas semelhanças e diferenças entre os pequenos.
O que me preocupa é criar um rótulo na criança. Por exemplo, se ficarmos repetindo que o fulano é tímido cada vez que não quiser cumprimentar alguém, o fulano vai crescer aceitando que é tímido mesmo. Ou então, se a mãe repete o tempo todo que a fulaninha é muito medrosa, a fulaninha simplesmente entenderá que é medrosa mesmo, sem nunca se esforçar pra mudar essa característica.
É claro que se fosse simples assim, era só ficarmos repetindo todas as qualidades que gostaríamos que o filho tivesse e ele passaria a ter. E embora eu ache que as qualidades devam ser valorizadas, acredito que rotular, mesmo que a qualidade, tb seja perigoso.

Pesquisando sobre o assunto, encontrei um texto** muito bacana que diz:

"Quando adjetivos positivos são usados, o agraciado acaba se convencendo de que é superior - e seus colegas de que dificilmente o alcançarão. "Além de tirar a autocrítica do sujeito, ele pode se tornar incapaz de refletir sobre as próprias ações, deixando de se arriscar naquilo em que não se sairia tão bem. Isso quando não fica incapaz de lidar com as frustrações", alerta Sonia Losito, doutora em Psicologia da Educação pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
No caso das famas negativas, o mais provável é que o estudante se sinta preso ao juízo de valor. Chamar um aluno de burro é o mesmo que dizer que ele não se adapta ao mundo escolar. "As crianças não são iguais. Têm ritmos, jeitos e modos diferentes de aprender. Mas todos são capazes", defende Divani Nunes, formadora do Grupo de Apoio Pedagógico da rede municipal de Taboão da Serra, na Grande São Paulo.
"

Eu acho que o grande perigo é a criança viver em função dos rótulos que recebe e crescer com medo de "frustrar" os outros, deixando ser aquilo que esperam que seja.

Por exemplo: O André sempre foi um bebê tranquilo e até hoje é super bonzinho. É educado, respeita as regras, pede desculpas quando faz alguma coisa errada e no geral, obecede super bem tudo o que falamos. Tem seus momentos de birra, como todas as crianças, mas não é uma criança difícil.
A Nana ainda é menorzinha, mas já conseguimos perceber algumas características muito claras. Ela não é tranquila. É geniosa - grita, berra e reclama quando contrariada e grita muito para chamar a atenção ou para que façamos na hora aquilo que ela deseja.

Não vejo problema algum em percerbermos e diferenciarmos as características de cada um (aliás, acho essencial reconhecer cada uma delas) para aprendermos a lidar com cada um do jeito que cada um necessita, mas não acho bacana ressaltarmos na frente deles que um é tranquilo e a outra é geniosa, que um é bonzinho e a outra é mandona e assim por diante.

Ela poderia crescer aceitando que é geniosa mesmo e que sempre ganha as coisas no grito e ele, quem sabe, poderia usar a condição de ser o bonzinho para conseguir o que quer. Claro que a gente não pode saber como cada um usaria as informações, mas acho que os rótulos são muito perigosos e acredito que devemos evitar ao máximo falar na frente das crianças sobre as suas características peculiares, que podem acabar sendo incorporadas e aceitas como verdadeiras.

É claro que isso não significa deixar de elogiar as boas atitudes e o bom comportamento e nem deixar de repreender os atos negativos, mas com o cuidado de não criar rótulos ou ainda tratar como se fosse o normal da criança dizendo frases como "vc sempre grita comigo" ou "vc nunca coloca os brinquedos no lugar certo". Essas palavras de "habitualidade" tb podem fazer com que a criança simplesmente aceite esse comportamento como sendo o seu normal.

O livro A auto-estima do seu filho, que eu já havia indicado AQUI, também fala sobre o assunto de uma forma muito bacana.
**texto na íntegra AQUI
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11 comentários:

Patricia disse...

Rê,

é isso mesmo, nada de rótulos. Ouvi outro dia uma frase que dizia que a gente é o que o meio pensa que a gente é. Algo assim.

obrigada pela dica lá no blog. Já garanti à Mariana que ela é meu bebê e que vai sempre ganhar colos e dengos, mesmo sem a fralda.
Ai, céus..rs
beijos

Ivana (Coisa de mãe) disse...

Rê, ótimo post e concordo plenamente com você. Sou absolutametne contra os rótulos e me vejo pensando antes de falar qualquer coisa para os meus filhos. As palavras pesam muito pra uma criança e por isso mesmo precisamos ter cuidado com o que sai da nossa boca.

A propósito, estou lendo o livro indicado e amando, muito bom. Mas só o encontrei no Sebo, pois está esgotado na editora.

Bjos!!

Ana Paula disse...

Sinto que as palavras têm um encantamento para o bem ou para o mal. Refletir, pensar, sentir o que sai pela boca é fundamental na educação de uma criança.
Adorei o que escreveu no início: "...deixá-la ser como é". Lindo!

Thaís Rosa disse...

Rê, ótima reflexão. às vezes, mesmo sem perceber, acabamos reforçando certas características das crianças que poderiam ser melhor desenvolvidas se não fossem "cristalizadas" ou estigmatizadas. Acho importante os pais elogiarem e também apontarem falhas dos filhos, mas de forma contextualizada, sem generalizações e sem rotular. Seu post me alertou a prestar mais atenção em como estou agindo nesse sentido!
beijo

Flavia disse...

adorei esse post!
As vezes a gente coloca os rótulos mesmo sem dar-nos conta.

Tem que ter, cuidado dobrado do que falamos pros pequenos (ou deles).

beijao

Mulher Vitrola disse...

Rótulos são mesmo perigosos. Você ainda citou rótulos "lights", mas infelizmente alguns pais poem rótulos piores. Quase que funciona mesmo como uma coroa: a criança comete a atitude, o responsável logo o nomeia. Pronto.

Tenho muita cautela com isso.
beijos!

Kelly Resende disse...

Renata, gostei muito desse post, outro dia estava pensando justamente sobre isso. Na minha familia temos a tendencia de rotular as crinças. Um dia meu sobrinho fez um comentário, repetindo o que a gente sempre dizia sobre ele e comecei a pensar que isso não era legal. Agora vira e mexe me pego falando algo sobre a Clara, preciso começar a me policiar seriamente porque acredito que os rotulos direcionam mesmo a formação da personalidade da criança e não quero que isso aconteça com ela. Obrigada pela dica, já tinha pensado em comprar esse livro, agora vou atras.
Beijos

Nine disse...

Oi Renata!
Que legal esse seu texto! Apesar de concordar com ele, eu me peguei lembrando das vezes em que reforcei um comportamento da minha filha, bom ou ruim, sem necessidade.
Vou parar e reparar mais nisso!
Beijos!
Nine

Anne disse...

É uma fina linha, né?
Pois eu também já percebo um monte de caracterísicas no Joaquim, e vivo fugindo dos rótulos.
Primeiro, não comento com ninguém (só na blogsfera inteira, né?) essas minhas opiniões. Ninguém do convívio dele que possa ficar repetindo: ele é assim, ele é assado.
Eu prezo muito o que ele é em essencia, e estou de olho aberto para proteger e orientar.

No meu caso aqui, eu acho Joaquim um tanto dramático. Ele sabe fazer uma cena como ninguém. Tenho ignorado algumas gritarias, para tentar ver se é uma característica dele ou se ela anda testando limintes...
sou novata, ainda não tenho muitas respostas...
hahah
bjos

Susan disse...

Adorei seu blog e já estou virando seguidora.
Esse post veio á calhar, últimamente esse assunto é algo que ando refletindo muito, procuro sempre elogiar meu pequeno, mais já parei pra pensar se tanto elogio não o deixará soberbo ao crescer, achando superior aos outros. Valeu pela dica do livro, já estou comprando, é um assunto que me interessa muuuito!
Um grande abraço.

Sonica disse...

Esse livro é o máximo, Renata!
E como é difícil não rotular...
Seus filhos estão lindos!
Bjs